segunda-feira, 31 de maio de 2010

Híno à Isis


Era uma vez uma garotinha chamada Isis...
Espera aí, “era uma vez” não é uma forma de se começar contos de fadas? E os contos de fadas não deveriam terminar com um: “felizes para sempre”?
Sinceramente, não sei...

Certo dia apareceu em uma porta, suja de sangue e ainda com cordão umbilical, uma criança em uma caixa de papelão.
Abandonada pela mãe biológica, quis o destino que não fosse também a dona daquela porta a sua mãe, nem tampouco a pessoa que se compadeceu e a tirou daquela situação.
Sua mãe seria apenas o quarto colo em que a pequena recostaria-se: uma senhora, idosa, chamada Maria.
Pareciam, então, resolvidos seus problemas, pois depois de um inicio de vida conturbado, não achara só uma mãe, achara uma “Maria”.
Mas sua curta e intensa jornada apenas começara...

Havia sido José – esposo de Maria, também idoso e doente terminal – que havia tido a idéia de criar a menina.
Sabia idéia, pois ela iluminaria seus últimos dias e seria a companhia de sua mulher depois que ele partisse.
No começo foi retrucado por Maria:
— Mas José, somos velhos. — dizia.
— Está decidido.

Impossível seria não lembrar dele sentado no banco da praça - ora sorrindo, ora concentrado em uma pose que muito lembrava a estátua de Drummond – enquanto ela corria de um lado para o outro.
E como corria!
Aliás, correr, assim como andar de bicicleta ou qualquer tipo de travessura, era sua especialidade, quase incansável nesse sentido.

Depois da morte de seu pai José – como quisesse preencher um vazio que existia mesmo antes de enterder-se como gente – começou a chamar de “mãe”, alem de Maria, duas de suas irmãs: Marizete e Elizabete. Passava então a ter o luxo de ter três mães.
No decorrer de sua vida eram poucas as suas amigas, sofreu bullying, e foi criada, até certo ponto, de uma maneira inadequada para seu tempo. Mesmo assim, era impressionante como, estaria sempre estampado em seu rosto um sorriso quase sobrenatural de tão intenso.
Intenso tal qual fora ela.
Intenso tal qual fora a vida dela.

Hoje, ainda estarrecido, não consigo fazer cair a fixa de que Isis Aparecida, 11 anos, está morta.
Vitima de um câncer contra qual lutou – com o sorriso intenso de sempre – por mais de dois anos. Período em que, entre outras coisas, teve sua perna direita amputada – imaginem só! Aquele era instrumento que usava pra fazer o que mais gostava: correr!
Pouco depois o tumor chegou ao pulmão.
Penso que todas as blasfêmias do mundo são totalmente justificáveis por casos como esse.
Não bastava a vida dura que tivera até então?
Não bastava ela ter sido abandonada pela primeira mãe, negada à segunda e tirada da terceira?
Meu Deus ela era uma criança!

Inevitavelmente, justas heresias invadiam meus pensamentos: “Oh meu Deus, com tanta gente praticando inimagináveis crueldades gozando de saúde plena, é esse o destino que Tu reservas pra uma criança?” ou “É pra Você que rezamos? Sois Vós quem chamamos de justo?”.
Imaginei o que seria de Maria nos próximos anos...
Perguntei-me o que era pior: a dor da lacuna deixada ou o fato passar a odiar Deus a partir de então?
Chorei compulsivamente quando entrei na casa de minha avó e vi um quadro de uma criança com um sorriso resplandecente, numa “formatura do ABC”, criança qual o destino justo certamente não fora atendido pelo Criador.
Agourei então, que só perdoaria Deus no dia em que conseguisse olhar pra aquela foto sem chorar.
Será que esse dia chegaria?
Foi só então que, meio ao desespero, fiz um ultimo pedido ao Deus em quem não confiava mais: “Já que não há como trazê-la de volta, para sanar a dor, manda ao menos uma explicação, ou um sinal, para aliviar a inconformidade!”.

Para minha total surpresa, fui atendido quase que imediatamente: uma chuva luminosa começou a cair do céu, batendo com força no telhado – como se pedisse insistentemente pra ser ouvida –, me fazendo volver a esperar em Deus, e me confortando, ainda que timidamente.

A chuva que caía no telhado, me fez lembrar uma tarde, da minha cada vez mais distante infância. Jogava bola com meus amigos na praça – a mesma que meu avô, em pose de Drummond, olhava encantado Isis correr – quando o sino da igreja próxima começou a badalar: era o funeral de um mendigo que estava começando. Logo em seguida, uma torrencial chuva começou a desabar. Lembro, que na inocência (sabedoria) de criança, um de meus amigos clamou: “a chuva significa que Deus está levando a alma desse homem direto pro céu...”.
Verdade ou não, o fato é que aquela tarde chuvosa inundou meu coração, cheio de tristeza, com um estranho sentimento de paz. A mistura dos dois sentimentos era ainda mais estranha.
A resposta que Deus me deu fora clara: aqueles cujo destino não depende de suas escolhas aqui na Terra, podem parecer injustiçados, mas terão Dele direta e divina assunção, terão Dele um lugar ao Seu lado. A certeza de que Isis estaria ao lado de Deus, lugar destinado aos anjos, teve sabor de mel.

As primeiras motivações que tive pra escrever essas linhas tortas, que Deus se encarregará de aprumar, datam do dia nove de maio de dois mil e dez: “dia das mães”, poucos dias antes dela morrer. Mas o texto só foi concluído no ultimo dia de maio – mês de Maria, mãe de Deus.
Esses fatos são intrigantes para uma criança que, como dito: nunca chegou a saber quem foi a primeira mãe, foi renegada à segunda, e teve três mães durante a vida (ou seriam quatro, hein Ada?).
São peculiaridades desse hino à Isis.
E ainda mais extraordinário: Isis foi o nome que os povos antigos deram à Deusa do Universo, a que – assim como nós costumamos chamar nosso Deus de Pai – eles chamavam de Mãe.
A Grande Mãe.
E isso em tempo nenhum deixou de ser verdade: Deus é pai, mas também é Mãe.
Pois é, como em uma tarde qualquer uma chuva me explicou, depois de 11 anos desamparada ou acalentada por colos de varias mães, Isis finalmente está no seu lugar devido: o colo de sua verdadeira Mãe.

Eric Vitoriano

Um comentário:

  1. olá!
    que lindo chegar aqui!
    me encantei, me emocionei!
    um beijo...

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